O mundo pelo buraco de uma agulha

A Câmara Escura

A fotografia pinhole (do inglês buraco de agulha), é uma técnica alternativa de fotografar, despojando a câmara de todos os acessórios supérfluos, voltando à sua essência absoluta: a câmara escura.

A câmara escura não é mais que um compartimento completamente estanque à luz, em que numa das faces é feito um pequeno orifício (orifício estenopeico), pelo qual passa a luz, produzindo na face oposta, uma imagem invertida de cima para baixo e da esquerda para a direita.

A primeira representação deste dispositivo data de 1544, mas este teria sido descoberto muito antes. No entanto, a fotografia teve que esperar muitos anos até ser inventada, em meados do século XIX. Primeiro descobriram-se os materiais sensíveis à luz, e só algum tempo depois se descobriu a forma de fixar as imagens.

 

«The Reflex Box Camera Obscura››, de Johann Zahn, 1685

 

As Câmaras Pinhole

Já se produziram câmaras pinhole de tudo, desde latas de café, caixas de madeira ou cartão, salas inteiras, até mesmo o interior de uma carrinha. Mas todas têm as mesmas coisas em comum: são estanques â luz, e foi-lhes feito um, ou vários minúsculos orifícios, por onde esta passa. Também se pode usar uma câmara reflex à qual se retira a objectiva, cobrindo o bocal com material isolante, e, claro, um furo.

Para produzirmos uma câmara pinhole com um caixa pré-existente, é necessário pintá-la, pelo menos pelo lado de dentro com uma boa camada de tinta-spray preta mate, e proteger todos os pontos por onde possa passar a luz com fita-cola isolante preta. Se a caixa for de metal fino, podemos fazer directamente o buraco na mesma, com a ajuda de um alfinete. Se for de cartão, podemos abrir um buraco maior na caixa e colar-lhe um bocado de metal com um furo (ex: invólucro de rolo fotográfico). O furo deverá ser maior quanto maior for a distância focal da câmara (distância entre o furo e o papel).

Quanto menor for o furo, mais nítida será a imagem, no entanto, se o furo for demasiado pequeno pode causar o fenómeno de difracção, distorcendo a imagem. Os furos devem ser limados pelo menos do lado inverso de que foram feitos. É muito importante que se tenha um mecanismo de “obturação', que não é mais que uma tampa que deverá tapar o buraco quando não estivermos a fotografar. Há várias fórmulas matemáticas para calcular os tamanhos dos furos a fazer, e centenas de técnicas para realizar câmaras pinhole, mas não há uma certa. O importante é criar imagens que nos satisfaçam e deixarmo-nos surpreender pelos resultados.

exemplo de câmaras pinhole
exemplo de câmaras pinhole

Os Materiais Fotossensíveis

Qualquer material do quaI possa surgir uma fotografia, serve como matéria sensível para fazer pinholes: Polaroids, chapas de negativos, rolos de 35 ou 12omm de negativos ou diapositivo a a cores ou a preto e branco já foram utilizados nesta técnica. Neste tutorial vamos usar papel fotográfico por ser o meio mais prático.

 

Fotografar com uma Câmara Pinhole

Para se fazer uma boa fotografia, em quaIquer técnica, é necessário obter o valor de exposição correcto para cada situação. Este valor está diretamente relacionado com a quantidade de Iuz que sensibiliza o material fotossensível Na fotografia pinhole, a única forma de controlar o valor de exposição é com o tempo de exposição. É necessário um maior tempo de exposição quanto menor for a Iuz disponível. Neste tipo de câmaras , os tempos de exposição de uma fotografia pinhole podem ser bastante elevados (desde 15"a várias horas). Por isso, é necessário pousara câmara num Iugar seguro e estável e estar acompanhado de um relógio. O obturador deve ser retirado, e no final do tempo estipulado, deve ser recolocado no Iugar. É sempre aconselhável manter o registo dos tempos e dos resultados.

 

O Laboratório 

0 papeI para fotografia a preto e branco tem uma sensibilidade ortocromática à Iuz. Isto quer dizer que é sensível apenas a uma parte do espectro luminoso. Por isso, deve ser manuseado num laboratório, sob iluminação de segurança, (o papeI não é sensível a essa radiação).  Para carregar a câmara basta recortar um pedaço de papeI que caiba na face da caixa oposta à do furo e fixá-Io com um carregador próprio ou apenas com um pouco de fita-cola. Depois fecha-se a câmara. É necessário ter cuidado para que não se acenda outra Iuz, não se abra a porta, ou se saia do laboratório sem antes verificar que o papel está correctamente fechado na sua caixa e se o obturador está colocado na câmara.

 

Depois de realizar a exposição é hora de revelar os negativos. Para isso, mergulhamos o papeI em três químicos:

Revelador:  Este químico reage com os sais de prata do papeI que foram sensibilizados, e faz aparecer a imagem. 0 tempo de revelação varia consoante o fabricante, mas geralmente está entre os 60" e os 90". 

Banho de Paragem:  Este químico tem um PH ácido, o que faz parar imediatamente a acção do revelador.  0 papeI deve permanecer mergulhado no banho de paragem entre15"e 60"(consoante o fabricante). 

Fixador:  Este químico faz com que o papeI deixe de ser sensível à Iuz e possa ser normalmente manipulado. Depois de ter passado metade do tempo necessário à fixação, pode acender-se a Iuz do laboratório e analisar os resultados. 0 tempo de fixação depende da diluição utilizada e varia de fabricante para fabricante. Geralmente não ultrapassa os 120". 

 

Depois deste processo as imagens são lavadas durante alguns minutos em água corrente para que não permaneça nenhum resíduo dos químicos anteriores. 

Estes químicos apresentam-se em fórmulas concentradas e é necessário verificar as embalagens para conhecermos as diluições correctas e os tempos de vida, já que todos eIes são reutilizáveis. 

É necessário manuseá-Ios com algum cuidado, já que são algo tóxicos. É aconselhável o uso de Iuvas e avental. 

 

Digitalização

Quando as imagens estiverem secas, digitalizamos os negativos e num programa de edição invertemos as cores e espelhamos a imagem. Posteriormente podemos imprimir o positivo, ou imprimir o negativo num acetato e fazer uma impressão por contacto com o ampliador.

 

Análise dos Resultados

Como foi referido anteriormente, o único meio que temos para chegar a uma boa imagem é a tentativa e erro. Portanto é importante saber analisar os resultados. Preferencialmente, o nosso negativo deve ter o máximo possível de tons de cinza, entre o preto e o branco puros.  Se o negativo se apresentar muito escuro, quer dizer que teve Iuz a mais, ou seja, deve reduzir-se o tempo de exposição e vice-versa. Se a variação dos tempos de exposição não produzir resultados diferentes, é possível que a câmara não esteja corretamente construída - pode não ser completamente estanque à Iuz, ou o orifício pode ser grande demais, ou estar obstruído por alguma coisa. Se a imagem apresentar um formato estranho (oval, ou com «bicos»), provavelmente quer dizer que o orifício estenopeico não foi suficientemente Iixado. 

 

Algumas fotos captadas pela nossa câmara:


exposição de 20''

foto pinhole da sagrada pelicula
exposição de 20''


exposição de 30''

Conclusão

A fotografia pinhole pode ser frustrante e recompensadora simultaneamente principalmente para quem gosta de controlar todos os aspectos da fotografia; é como trabalhar sem rede: sem fotómetro, sem visor, e com uma abertura fixa. A curva de habituação é lenta e baseada no método tentativa-erro, mas depois de dominar a técnica é possível conseguir resultados bem interessantes, vejam os links de projectos pinhole!

 

 

Projectos:
Time In a Can
TrashCam Project 
T
he Pinhole Parcel Project

Referências:
Worldwide Pinhole Photography Day (resources)

 

Câmaras estenopeicas:
Zero Image
Ilford Pinhole Kit
Obscura da Ilford
Pinhole Blender
Stenoflex

Vemeer
Kurt Mottweiller
Skin Pinhole ( lentes para por a leica ou a hasselblad a fazer pinholes...)
Heartbeat ( uma pinhole com precisão relojoeira)

Corbis readymech (para download)

 

 

Um agradecimento especial à Magda e ao Domingos da imagerie

 

 

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