À conversa com Fernando Martins

Nasceu em 1972. 
Frequentou o curso de Design de Comunicação da Faculdade de Belas Artes de Lisboa.
Representou Portugal na Bienal dos Jovens Criadores da Europa e do Mediterrâneo em 1992.
Começou a interessar-se por fotografia e aprendeu a técnica fotográfica na disciplina de Fotografia do curso de Design de Comunicação da Faculdade de Belas Artes de Lisboa em 1992.
Trabalhou em agências de Design e Publicidade como Pós-produtor fotográfico e Ilustrador sendo freelancer desde 2002.
Colaborou como Ilustrador em inúmeros jornais e revistas em Portugal. 
Em 2006 criou e leccionou Workshop de Edição de Imagem no AR.CO  (Centro de Arte e Comunicação Visual).
Em 2016  publicou na Abysmo o Photobook Cidade Sombra com uma exposição homónima individual na Cordoaria Nacional em Lisboa.
Em dezembro de 2019 inaugura a exposição Release The White Rabbit no auditório Municipal Augusto Cabrita no Barreiro
Vive e trabalha em Londres desde 2015 dedicando-se à fotografia, pós produção fotográfica e ilustração digital.
 

De onde vem o interesse pela fotografia?

O interesse pela Fotografia surgiu em alturas diferentes, primeiro, ainda muito novo, como quase toda gente, através da câmara dos pais, uma Agfamatic 55C e um ou dois rolos para as férias de verão que eram democraticamente divididos por todos; penso que vem daí a disciplina, o respeito por cada frame e o nível de exigência no enquadramento. Numa segunda fase, no fim da adolescência, fui muito influenciado pela estética das bandas Indie e Pop Rock do final dos anos oitenta, as capas de discos e os videoclips, assim como pelas produções de moda em revistas como a Vogue Hommes, Arena ou a Face; recordo nomes como Anton Corbijn, Helmut Newton, William Klein ou Bruce Weber, tudo isto, a juntar ao meu interesse pelo cinema, pela Nouvelle Vague, o Expressionismo e o Film Noir foi determinante na definição de uma estética e para que começasse a fotografar com uma abordagem, digamos assim, mais artística. De seguida, a entrada na Faculdade de Belas Artes e a disciplina de Fotografia fez com que aprendesse o que me faltava, desde a Pinhole Camera às técnicas de revelação e impressão, ao mesmo tempo que usava a fotografia em trabalhos de diversas disciplinas do curso. Há cerca de dez anos, depois de muito tempo sem fotografar comprei uma série de câmaras antigas na Feira da Ladra que me fizeram despertar novamente para a fotografia, Agfa Billy, Canon Canonet, Pentax S1A e uma Konica Auto S2, esta última que usei exaustivamente durante um ano e tal. Mais tarde, desenvolvi o meu primeiro projecto, Cidade Sombra, cerca de dois anos de percursos diários a fotografar em Lisboa que resultaram numa exposição individual na Cordoaria e a edição do respectivo photo book na Abysmo em 2016.

Como descreves a tua fotografia?

É sempre difícil descrever a minha fotografia, com receio de me tornar demasiado explicativo ou de me substituir à sua autonomia e mistério, mas procurando reconhecer uma consistência no estilo, padrão ou recorrência de temas, eu diria que é o registo de um certo quotidiano ignorado, revelado numa estranha inquietação por uma estética sombria e algo ameaçadora.

Que equipamento e objectivas usas nas fotos que mostras aqui.

Nikon FM2n, Nikon F5, essencialmente, objectivas de 20 e 35 e 50 mm, mas fotografo muito também com a Leica M6, Olympus OM-2N, OM-1, Mamiya C33 e Yashica Mat 124 G

e películas preferidas?

Uso bastantes, gosto de experimentar, mas as mais recorrentes são o Kodak Tri-X, o Ilford HP5 400, FP4 125, o Kodak TMax 100 e 400,

Release the White Rabbit parece uma diário de uma Londres sombria e alternativa. É esta a tua Londres?

O Release the White Rabbit surgiu de um primeiro projecto, logo que cheguei a Londres há cinco anos, pensei em criar um corpo de trabalho documental sobre cada um dos boroughs (distritos ou freguesias), focando-me nas particularidades sociais, na arquitectura, nas comunidades etc., um projecto megalómano quando estamos a falar de fotografar 32 áreas numa cidade de 1570 km2 (!). Ao fim de alguns meses a viver aqui passei a a olhar para a cidade de uma forma menos compartimentada, sentindo para além do problema da escala, que aquelas fronteiras se diluíam e que o projecto já não me interessava tal como o concebera inicialmente. No entanto, como ando sempre com uma ou duas câmaras na rua, nunca parei de fotografar, intuitivamente, já sem pensar no projecto. À medida que fui revelando as fotos, apercebi-me de um conjunto de imagens que pareciam comunicar entre si, mostravam um lado bizarro e menos conhecido da cidade que me pareceu mais consistente para desenvolver um projecto, sem as limitações a que de início me tinha imposto; assumia desta forma um olhar muito mais pessoal, de alguma forma a minha Londres, para responder à tua pergunta, e que resultou na exposição Release The White Rabbit.

O meu processo de trabalho passa muito por esta espécie de avaliação posterior, de olhar para as fotos meses depois de as tirar e ir fazendo ligações, formar pares, criar pequenas narrativas. Aqui o título Release the White Rabbit evoca o coelho branco como símbolo da abertura para um mundo paralelo, faz-nos olhar para além do que é óbvio, e é também a manifestação de um lado mágico, um passo no oculto. Uma amiga minha depois de ver a exposição disse que sentia que havia algo que a perseguia, é este o tipo de feedback que me agrada, sentir que há uma presença que habita aquelas imagens ainda que por ali quase nunca se vejam pessoas.

Porque insistes em fotografar com película?

Apesar de também usar o digital, é a película o que utilizo no dia a dia. Há uma certa magia que se perde quando fotografo em digital, fico para ali a disparar e a olhar constantemente para ver o resultado, cria-me ansiedade. Já o analógico é essencial no meu processo criativo, gosto de estar dez ou quinze minutos à procura do enquadramento perfeito, tenho uma maior envolvência com o espaço e sinto-me muito mais ligado ao que está do outro lado, como se houvesse um diálogo com aquilo que fotografo, agrada-me a disciplina dos 36 frames por rolo, de esperar às vezes vários meses pelo resultado, literalmente pela revelação. Por outro lado também gosto mais dos resultados da película, do preto e branco em particular. É um facto que já fiz trabalhos a um nível profissional e comercial em que o digital me serviu melhor, mas aí os pressupostos são totalmente diferentes, mais ligados a questões práticas como a falta de tempo ou a exigências técnicas que no meu trabalho mais pessoal não são relevantes.

Referências na fotografia? algum fotógrafo decisivo na tua vida para também quereres ser fotógrafo? Ou foi algo natural que aconteceu?

Não me ocorre apenas um fotógrafo decisivo para ter começado a fotografar, as minhas referências são abrangentes a outras áreas, ao cinema, à literatura, à banda desenhada… o Jacques Tourneur não será menos decisivo para mim do que o Robert Frank, por exemplo. Quando penso em fotógrafos de que gosto ocorrem-me sempre tantos nomes, e com registos tão diferentes: Christer Strömholm, Anders Petersen, Daido Moriyama, Alfred Stieglitz, Diane Arbus, Harry Gruyaert, Paulo Nozolino, Brian Duffy, Duane Michals, Lee Fiedlander, Alec Soth, William Eggleston, Brassaī, Nan Goldin... Acabei há pouco de ler a biografia do Don Mc Cullin, um senhor com uma história de vida e obra impressionantes; a Tate Britain dedicou-lhe uma exposição notável o ano passado.

Projectos para o futuro?

O Release The White Rabbit é um ongoing project, a última imagem da exposição é um marquee iluminado com a frase Follow the White Rabbit, portanto vou continuar por aí.

O que te inspira?

Correr, é a altura em que me consigo abstrair das preocupações, parece que o cérebro se organiza espontaneamente durante a corrida e ao mesmo tempo fluem imensas ideias É um prazer e uma necessidade diária.
 
 

Algumas fotos de Cidade Sombra

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Algumas fotos de Release the White Rabbit

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Todas as fotos de Fernando Martins e publicadas com a autorização do autor.

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