Um café com Fernando Correia

Vejo o Fernando como um resistente, um fotógrafo da velha guarda, de uma geração em extinção.

Geralmente a preto e branco, a sua fotografia tem uma composição muito cuidada; com ambientes minimalistas, a exposição e contrastes das suas fotos estão sempre no ponto, fruto de anos de experiência e de um olho bem cuidado.

Nos anos 70, quando o Eric Kim não sonhava com fotografia de rua, já Fernando fotografava as ruas de Lisboa.

Dizem que gosta de fotografar pedras, calhaus e madeiras. ;)

Passo a palavra ao Fernando:

 

É verdade que sou da velha guarda. Provavelmente de uma geração em extinção! Quanto a isso nada posso fazer!

Devo o meu início à inveja. À inveja que sentia ao ver fotografias.Todas! Postais, de família, nas revistas, eu sei lá o que mais devorava com os meus olhos nesse tempo sem televisão. A inveja foi notada pelo meu pai que me ofereceu uma espantosa Kodak Brownie de lentes geminadas para o formato 127, aquele dos negativos 4x4.

Foi assim que comecei. Depois, foi a descoberta da luz e da película, e do local escuro onde se sujeitava o filme a um banho especial. Com 14 ou 15 anos revelava os negativos 6x6 provenientes dos roubos que ia fazendo à máquina do meu pai, uma espalhafatosa Rollei, e imprima-os por contacto obtendo assim “belíssimas” provas já com dimensão para se perceber o que lá estava. A “inspiração” e os temas vinham da família que aturava os meus constantes pedidos de ponham-se lá aí e de algumas paisagens por onde eu passava quando era levado em passeios ou viagens.

No início da década de 70, já dava os primeiros passos pelos concursos de fotografia, que ao contrário do que se possa pensar, naquela época abundavam. Datam dessa altura algumas coisas que eu fiz no extremo norte do país, no Algarve então ainda terra de pescadores e por Lisboa onde gastava muito do meu tempo livre.

 

A minha preferência pelo preto e branco é o resultado do meu processo de aprendizagem. Comecei com ele, “evoluí” com ele e acabei por ficar preso na sua representação da realidade.

Não quer isto dizer que recuse a cor. Nada disso. Simplesmente prefiro a simplicidade dos cinzentos. É mais fácil para mim. E depois, quando comecei a tentar entrar mais a sério, o Josef Koudelka, o Eduardo Gageiro, o Henri Cartier Bresson, o Irving Penn, o Jean Loup Sieff, o Bill Brandt, o Ansel Adams, o Edward Weston, decididamente mexeram comigo.

Tenho saudades do Kodak HIE e do Fuji ACROS. Dos outros nem tanto porque na verdade todas as películas sofreram grandes “evoluções” e quando se é nostálgico em relação, por exemplo ao Tri-X, na verdade a sua versão actual há muito que o tipo de emulsão, sais de prata e base, pouco têm daquilo que tornou o Tri-X o que ainda parece ser!

O Kodak HIE e o Fuji ACROS são casos especiais. O HIE porque foi criado e descontinuado com as mesmas características originais. Nomeadamente a inexistência da camada anti-halo.

A conjugação desta “falha” permitia obter um efeito que só com o HIE era possível e embora hoje existam alternativas interessantes, a coisa não é como com ele ….

Já o ACROS, relativamente recente criado pela Fuji, tem as características que eu vejo num filme moderno: grão fino, latitude de exposição, etc … O ACROS foi e ainda é, porque tenho um stock considerável em 120 e 4x5, quando revelado com RODINAL ou, como gosto mais, com HC110 a minha película de referência.

 

Costuma-se dizer que O GF é um campeonato à parte e será mesmo?

Primeiro há muita ignorância no que se diz e até para aprender com o doutor google é preciso mais qualquer coisa que olhos. Já escutei alguns artistas iluminados incluírem nesta designação coisas como impressões de grandes dimensões, ou negativos de 6x6 ou mesmo 6x9, etc..

O GF que conheço é um processo fotográfico que envolve, sempre, a utilização de uma película com dimensões iguais ou superiores a 9 cm de lado menor e 12 cm de lado maior.

Ora, como a era digital ainda não conseguiu produzir superfícies sensíveis à luz desta dimensão de forma que a sua comercialização esteja ao alcance do comum dos mortais, o GF ainda está acantonado no “velhos” materiais sensíveis à base de sais de prata, que precisam de revelação em câmara escura!

Acresce que por força do que acabei de dizer as máquinas que suportam este processo são também despidas de todas as tecnologias que democratizaram a fotografia: não há focagem automática, não há exposição automática da luz, não há compensação de movimentos, não há HDR, não há compensação de diafragma ou de obturador. Enfim, é preciso fazer tudo e tudo fica ao critério do fotógrafo. E aqui começam os problemas porque, como disse, o “fotógrafo” tem de ser capaz de tomar uma mão cheia de decisões de acordo com os ajustes possíveis e necessários face ao motivo que quer fotografar, naquele preciso momento.

E ainda por cima não pode falhar, só há uma oportunidade porque a superfície sensível é fornecida em folhas isoladas. Uma de cada vez é a filosofia.

Portanto nada de disparar uma série de fotogramas e ver qual delas ficou melhor. Na verdade a teoria do “momento decisivo”, que aliás não partilho mas que sou obrigado a respeitar tendo em atenção a multidão de fotógrafos e artistas que a seguem hoje em dia acompanhados de toda a tecnologia, se se pode falar disso, do momento decisivo, então será seguramente no GF!

Imaginemos que numa das máquinas digitais actuais era possível mudar de sensor de acordo com o que se estava a “tentar” fotografar? Que maravilha seria, sermos capazes de escolher o sensor adequado à circunstância, sem mudar de máquina!

Pois bem, é isso exactamente que se faz quando se escolhe esta ou aquela película para este ou aquele trabalho: dimensão e características da trama do grão, sensibilidade, revelador e para já não falar da dimensão. Esta é a grande vantagem da película face às soluções digitais existentes. É como se tivéssemos a possibilidade de trocar de sensor sempre que fosse necessário.

Sou realmente atraído pelas paisagens desumanizadas, quase estéreis, densas. São manias que modernamente dizem-se opções, para as quais não encontro explicação. É assim que sou.

 

 

Muito Obrigado Fernando, um abraço!

 

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